Concluí o segundo capítulo de Liderança Soberana, livro que estou escrevendo sobre como agir com clareza em um mundo que não podemos controlar.
O capítulo se chama Não era para ter acontecido: como reconhecer a realidade quando ela contraria nossos planos.
Ele começa às duas e quatorze da manhã. Fernando e sua equipe encerram a migração de uma plataforma de cobrança. Os valores conferem e tudo indica que meses de trabalho cuidadoso chegaram ao resultado esperado.
Poucas horas depois, clientes que haviam pagado começam a ser bloqueados.
Fernando não quer apenas compreender o que aconteceu. Precisa descobrir quem falhou.
Quando competência se torna identidade
Planejar é uma forma de cuidado. O problema começa quando Fernando passa a depender dos resultados para continuar se sentindo competente.
Quando tudo acontece como previsto, o plano confirma também quem ele acredita ser. Diante de uma surpresa, o acontecimento deixa de informar os limites do planejamento e se transforma numa ameaça à sua identidade.
Uma qualidade legítima começa, então, a governá-lo. O líder cuidadoso precisa que a realidade confirme seu cuidado. O estrategista precisa que o futuro se pareça com sua estratégia.
O mundo externo recebe uma tarefa interior: dizer quem somos.
O mapa e o território
Todo planejamento reduz a realidade para permitir uma ação coordenada. Essas reduções não são defeitos. O problema aparece quando a precisão do mapa se transforma numa promessa sobre o território.
No caso de Fernando, o incidente surgiu quando rotinas corretas e uma proteção retirada se encontraram numa sequência que ninguém havia testado.
Depois do resultado, o percurso parecia evidente. Esse é o viés retrospectivo: o desfecho modifica nosso julgamento sobre o que seria possível prever.
Reconhecer a complexidade não absolve negligência. Apenas impede que a clareza conquistada depois seja usada automaticamente como prova de incompetência anterior.
Reconhecer antes de explicar
Enquanto Fernando buscava uma causa completa, os clientes continuavam bloqueados. Sua aparente prudência também escondia a necessidade de compreender tudo antes de agir.
Reconhecer a realidade não é aprovar o dano nem abandonar a investigação. É permitir que o acontecimento seja informação antes de transformá-lo numa sentença sobre nós ou sobre os outros.
A soberania não começa quando aprendemos a prever tudo. Ela aparece quando nossa competência já não depende de resultados perfeitos para permanecer inteira.
Com esse capítulo, os dois movimentos iniciais do livro estão escritos. No primeiro, a liderança aparecia presa à necessidade de continuar sendo necessária. Neste, aparece presa à necessidade de que o mundo obedeça ao plano.
Fernando não podia desfazer o incidente nem garantir o próximo resultado, mas ainda podia decidir como responder ao que já havia acontecido.